Agora só restam lembranças e poucas fotos que restaram, lembranças de gritos cortantes e do cheiro incansável de gasolina. Lembro dos corpos mortos que permaneceram finalmente em silêncio, jogados ao desdém.
Sim, me lembro tanto de cada detalhe, mais do que um homem de 83 anos à beira da morte normalmente lembraria. Lembro-me do dia que percebi a realidade da guerra e seus infortúnios.
- Soldado Paul - disse em tom firme - peço-lhe um favor, caro norte-americano.
- Sim, senhor. - eu disse em devoção.
- Uma pessoa deve ser executada pelo roubo que cometeu ao estoque de comida.
- Aonde, senhor?
- Sala 3 - disse encerrando a conversa como um ponto final.
Não era a primeira vez que ia de encontro à morte, em um lugar como aquele, a morte se torna uma amiga frequentemente vista e já me era tão comum que nem mesmo arrepios me causavam.
Abro a porta e vejo, então, uma mulher morena, parda, com o rosto cheio de hematomas, vestimentas degradadas. No canto direito da sala, estava um menino de uns oito anos, com roupas igualmente sujas e lascadas. Seu corpo era tão magro que seus tornozelos deveriam ser do tamanho de meus pulsos.
Na mesa onde a mulher estava algemada, estava uma rosa tão vermelha igualmente a que está do meu lado agora. Do lado da rosa, a um palmo de distância estava um revolver com capa de couro que usaria. E no meu peito, dor.
De imediato, neguei. Nunca poderia matar uma mãe na frente de seu filho, que provavelmente já deveria estar com emocional abalado por ser tão jovem em uma situação como aquela. No entanto, tinha de agir com as regras, quando aceitei esse emprego, aceitei agir dentro das leis que me eram ordenadas. Hoje entendo que não fiz a escolha certa e de certa forma até me arrependo, poderia ter seguido como exemplo a minha própria mãe e o açucar de minha infância.
Começa em mim uma guerra psicológica, ética versus moral. Segurei a arma, tanto silêncio, quis dizer algo, pedir desculpas. Pedir desculpas pelo quê? A culpa era minha e não poderia des-culpá-la. Então resumi minha inferioridade para apenas quatro palavras que, mas tarde descobri que nada significaria:
- Que Deus te abençoe.
Seu filho correu até seu corpo e o abraçou com braços finos observando os olhos abertos de sua mãe, tinha sido um tiro no peito e ela nem durou o bastante pra trocar alguns olhares com ele. O coitado chorava tanto, soluçava tanto que quis ser como um coleguinha de futebol e abraçá-lo dizendo que tudo ficaria bem, mas não, eu era apenas um soldado sem valor, numa guerra sem valor cometendo erros que jamais seriam acertados.
Não preciso lhe dizer que abandonei o emprego, já não era um soldado e suas ordens: Era uma criança acompanhada de suas lágrimas.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Infortúnios.
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